O avanço da pauta paralela

Maria Tereza Teixeira

Igualdade de gênero, Violência contra mulher, Morticínio da juventude negra, Discriminação de Idoso, Destruição do meio ambiente ... Esses temas vêm sendo cada vez mais discutidos na sociedade. Paulatinamente e sem que se desse conta, deixaram de ser questões de minorias. E vão ter uma grande influência nas eleições de 2018, embora, ao que pareça, os candidatos que já despontam não tenham entendido.
Não é de hoje que essa pauta paralela vem decidindo pleitos. No final do segundo turno das eleições de 1989, quando o favoritismo de Lula era inquestionável, Collor deu-lhe um tiro certeiro, divulgando o vídeo em que a ex-mulher de Lula denunciava o pedido feito por ele para que ela fizesse aborto quando grávida de Lurian, filha viva do casal. Lula perdeu a eleição.
Na campanha presidencial de 2014, Marina Silva tornava-se cada vez mais competitiva levantando bandeiras referentes à pauta paralela, sobretudo a destruição do meio ambiente, que hoje mobiliza preocupações mundiais. A ameaça que Marina representava caso chegasse ao segundo turno era grande. Surgiu então uma ofensiva nas redes sociais que uniu contra ela, de forma bastante agressiva, vários grupos cujos interesses constam da nova pauta: Marina era evangélica e, portanto, não aceitaria nem o homossexualismo nem o aborto. Jean Willys, porta-voz dessa reação, brilhava. Marina ficou fora do pleito.
Rio de Janeiro, campanha à Prefeitura em 2016. Eduardo Paes, então prefeito, admirado pelo carioca por ter enfrentado problemas urbanísticos que há anos infernizavam a vida na cidade, lança como candidato à sua sucessão Pedro Paulo, seu braço direito nos dois mandatos. Surge a denúncia de que Pedro Paulo havia batido na mulher, e a prova era a queixa que a vítima apresentara em uma delegacia. O escândalo ganhou grandes proporções, e Eduardo Paes subestimou a força da pauta paralela. Os cariocas preferiram derrotar Pedro Paulo. Marcelo Crivella, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, foi eleito. Para surpresa de muitos, bater em mulher é inaceitável e em qualquer circunstância.
Paraty, Flip 2017, um encontro literário de grande repercussão na área cultural. Lázaro Ramos denuncia o genocídio da juventude negra. Segundo o Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, observa que “jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra”. Segundo o Mapa da Violência 2016, que analisa os homicídios com arma de fogo, de 2003 a 2014 houve uma queda de 26,1% no número de vítimas na população branca; entre os negros, no mesmo período, houve um aumento de 46,9%.
Enquanto isso, a candidatura Bolsonaro ganha adeptos também com a pauta paralela, mas se opondo a qualquer avanço na área dos direitos humanos. Até quando terá fôlego?
O candidato à presidência que ignorar esses temas contemporâneos vai ter dificuldade de se eleger. A qualquer momento, pode ter a candidatura fragilizada por uma declaração desastrosa. Ao homenagear as mulheres pelo 8 de Março, Temer mostrou estar absolutamente alheio à expansão e popularização do feminismo, que deixou de ser um movimento para se tornar uma atitude diante da vida. Temer pagou caro pelo desconhecimento.

Maria Tereza Teixeira é jornalista e publicitária

 

O SONHO DE GLAZIOU

Luiz Philippe Torelly

Uma antiga marchinha de carnaval dos anos 60 dizia assim: “Brasília não tem praia, Brasília não tem mar, mas tem o Lago do Paranoá”. Era uma resposta dos nativos adotivos ao enorme contingente de cariocas que viviam se lamuriando de saudades de Copacabana. Muitos dos mais jovens talvez pensem que o lago sempre existiu, pois é impossível pensar Brasília sem ele, te tal sorte estão amalgamados. Igualmente muitos devem achar que se trata de mais uma das muitas invenções do criador de Brasília, Lucio Costa, ou de seu arquiteto maior, Oscar Niemeyer.
Na verdade o autor da ideia de criação do Lago Paranoá foi o engenheiro, botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, integrante da 2ª missão Cruls ocorrida de 1894 e 1896. A determinação de interiorizar a capital constava da primeira constituição republicana de 1891. Em 1892, foi nomeado o astrônomo belga naturalizado brasileiro Luiz Cruls, para realizar o primeiro relatório de impacto ambiental de que se tem notícia no Brasil, com levantamentos da fauna, flora, hidrografia, clima, relevo, geologia e para estabelecer as coordenadas de demarcação do quadrilátero da nova capital, bem maior que o atual, com 14.400Km². Os trabalhos duraram até 1894, quando foi publicado o Relatório Cruls, uma proto-certidão de nascimento de Brasília. Teríamos que aguardar 60 anos para que o dispositivo constitucional se tornasse realidade, e as obras tivessem início.
Glaziou veio para o Brasil em 1858 fixando-se no Rio de Janeiro, então capital do império. Exerceu os cargos de Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial e Inspetor dos Jardins Municipais. Dentre seus trabalhos mais importantes e que são referências no paisagismo brasileiro, destacam-se o Passeio Público, a atual Praça da República, antigo Campo de Santana, e os jardins da Quinta da Boa Vista, residência da família imperial, todos no Rio de Janeiro.
Como outros viajantes que por aqui passaram, Glaziou se impressionou positivamente com o clima, a flora e fauna e as demais condições geográficas. Vale a pena fazer a transcrição de um pequeno trecho da carta de Glaziou, quando ele se refere à possível criação do lago: “A todas essas riquezas oferecidas ao homem laborioso, nesse centro de planalto, juntam-se mais os recursos e a vantagem que lhe proporcionarão ainda abundantes águas piscosas. Entre os dois grandes chapadões conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe uma imensa planície sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa: outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água formando o Paranoá; o excedente desse lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas, por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas. É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte, forçosamente a água tomará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de16 a 18”.
O Lago Paranoá já havia sido profetizado alguns anos antes, em 1883, por Don Bosco, em seu sonho profético sobre Brasília. Glaziou, observador atento da natureza, não só constatou a viabilidade de formação do lago, como também indicou a solução técnica que foi adotada décadas depois. Brasília e seu lago estavam fadados a se tornar realidade.
Desde o século XVIII, a interiorização da capital foi preconizada para permitir uma ocupação mais racional das dimensões continentais do país. Sempre criticada desde o início de sua construção, não tenho dúvidas que Brasília cumpriu o papel que dela se esperava: integrar o território nacional e ocupar os enormes vazios demográficos da região Centro-Oeste, hoje o grande celeiro do país.
Para concluir, uma pequena estória sobre o Lago do qual foram protagonistas o Presidente Juscelino Kubitscheck e Gustavo Corção, colunista de O Globo. Corção, homem de ideias conservadoras, sempre fora contra a construção de Brasília. Criticava-a regularmente em sua coluna. Dizia que o lago nunca encheria, pois a terra era arenosa e absorveria toda a água. Quando finalmente o lago atingiu a famosa cota mil, JK conhecido por seu bom humor enviou o seguinte telegrama a Corção: Encheu!

Luiz Philippe Torelly é arquiteto.

VIVER NO QUADRADO

Valentina Castello Branco

Para os entusiastas da arquitetura, Brasília é a Disney. Em 1987, a cidade foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Isso garante que o que se vê numa visita hoje é muito próximo do projeto original de 1957. Como nem só de monumentos federais é feita a capital, uma das coisas mais legais de se explorar é o estilo de vida de quem mora nessa cidade planejada.

O melhor portal de acesso é a 308 Sul, um quadrado de 250m x 250m, cercado por árvores por todos os lado. A combinação urbanismo/arquitetura/paisagismo atingiu seu ápice aqui. Comece pela Igrejinha, uma das primeiras construções da cidade. Ela foi encomendada a Niemeyer pela primeira dama, Sarah Kubitschek, como pagamento de uma promessa. De grupos de turistas japoneses a gente cool fazendo as fotos do casamento, todo mundo quer as pombinhas do Athos Bulcão como fundo do seu retrato em Brasília. Em seguida, adentre a 308 Sul. Mas não dê voltas e não ande pelas calçadas que beiram as ruas. Atravesse o Bloco B pelo meio, sem ter que desviar de muros opressores ou de cerquinhas safadas, e vivencie o pilotis. Para os pimpolhos que moram aqui, descer pra brincar no pilotis é o prêmio depois de terminar o dever de casa. Pra um turista cansado de bater perna no sol, pode significar 20 minutos estendido no piso de granitina fria e convidativa, enquanto faz uma oração agradecendo aos deuses do modernismos pela sombra e brisa fresca.

Explorando a quadra, você vai passar por espaços projetados pelo mestre maior do paisagismo brasileiro, Burle Marx. Nessa hora, as pessoas costumam começar a fazer as contas pra ver se o que têm investido na renda fixa pode pagar o metro quadrado da região. Se tem gente morando bem assim, eu também quero ser uma delas, ora bolas! Isso porque você ainda não viu o jardim de infância e duas escolas lindas, espaçosas e cheias de áreas verdes, e tudo isso pra atender apenas os moradores dessa pequena região. Por essas e por outras, a 308 é a quadra modelo de Brasília, a menina dos olhos que a gente exibe, e que deveria ser, mas que não foi, replicada no resto da cidade.
Ainda fazem parte da Unidade de Vizinhança perfeita:
▪ Clube Vizinhança – uma fraternidade na qual você só entra se morar em uma das 4 quadras que o cercam.
▪ Espaço Cultural – espaço de exposições, teatro e cursos de artes abertos a todos. Serve também como ponto de encontro de adolescentes emos.
▪ Cinema – tem as poltronas mais largas e confortáveis do Oeste! Como se isso não bastasse, sedia o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos mais importantes do Brasil, cujo público é conhecido por não segurar suas vaias, ainda que o diretor esteja lá para ouvi-las.

Pra finalizar o rolé: comida! Pra uma fome moderada, Pizzaria Dom Bosco. De pé, com a barriga encostada no balcão quente e com um tumulto visual na sua frente, descubra a felicidade que só uma fatia dupla promove. Se você é do tipo que ainda valoriza refeições em uma mesa com cadeiras e talheres: Xique-Xique. Nunca vi quem precisasse de cardápio aqui. Peça a porção de carne de sol pra X pessoas e seja feliz. Para potencializar a experiência, recomendo manteiga de garrafa sem moderação.

 

HOTEL DAS ESTRELAS

 

Luiz Philippe Torelly, arquiteto

O crescimento de Brasília foi lento em suas duas primeiras décadas. Muitas das cidades do Distrito Federal não existiam, e o Plano Piloto era esparsamente ocupado. As opções de lazer eram limitadas. Festas nos clubes Iate, Cota Mil e Congresso, ficar dando voltas no Gilberto Salomão como se faz até hoje em algumas praças de cidades do interior, ir à missa da “paquera” na Igrejinha e depois pizza com mate na D.Bosco. Pouca coisa, além disso.
Os ventos de 68 sopraram forte em quase todo mundo. Aqui não foi diferente. Invasão da UnB, passeatas, prisões. Nunca me esqueço do slogan: “Rockfeller vem aí. Pau nele”! A Thomas Jefferson, como símbolo do imperialismo ianque, era a primeira a sofrer as consequências e ter suas vidraças quebradas. A repressão foi dura e geral. O AI-5 concedeu poderes quase absolutos à junta militar que antecedeu Garrastazu Médici, de triste memória. Mas o sonho não foi embora. Ficou oculto nos corações, mentes, nas árvores e até nas pedras. O movimento hippie se espalha pelo mundo e mesmo estereotipado, provoca uma revolução nos costumes.
Daqui do nosso sertão nos apropriávamos das novas, da forma que nos era possível. Tínhamos à nossa disposição toda a beleza do Cerrado, ainda sem sofrer a ação criminosa dos grileiros. Em quase todos os fins de semana, especialmente nas sextas-feiras, organizávamos festas ou luais como se fala hoje em dia, em “quebradas” a beira do lago, córregos, bosques, enfim, qualquer lugar aprazível longe de nossas casas, de nossos pais e da polícia. Os rapazes que tinham carro, quase sempre um fusca, tinham como equipamento obrigatório, no porta-malas, um alcochoado ou lona para compor o “hotel das estrelas”. Era ali que tudo começava e acabava. Os músicos também eram essenciais, violão, gaita ou flauta e percussão. Vinho barato de garrafão tipo o inesquecível “Sangue de Boi”, que demonizava nossas ressacas, e alguns tira-gostos desses de saquinho mesmo. Pronto, a festa estava armada e quase sempre era um sucesso. O raiar do sol vinha nos avisar que era hora de ir embora, principalmente porque os pais das meninas, há essa hora, já estavam espumando de raiva.
Íamos também com frequência acampar, o que exigia providências de logística e transporte mais complexas e normalmente um feriadão, ou Carnaval e Semana Santa. Era uma excursão de jovens ansiosos por “desbundar” em meio à natureza semisselvagem, longe de olhares incômodos. O esquema organizativo era mais sofisticado que as festas nas quebradas. As compras eram centralizadas, e a realização das atividades predeterminadas. Mas sempre havia os insubmissos e os de última hora que se agregavam à caravana, sem nada levar ou contribuir.
Nosso pequeno paraíso era composto por barracas de lona, algumas mais modernas como as atuais, que àquela época começavam a surgir. Como sempre acampávamos à beira d’água, passávamos o dia de sungas e biquínis. Os banhos coletivos ou em duplas ou até mesmo individuais não tinham hora certa. Uma bela noite de lua cheia podia ser o cenário perfeito. A questão central era o quem dorme com quem e em que barraca. Os casais já estabelecidos levavam sua própria barraca. Havia sempre umas duas ou três maiores, que acolhiam os avulsos. Pela manhã, quase sempre surgiam novos casais.
Vamos ficando mais velhos, os filhos nascem e os acampamentos foram se acabando. Como as festas nas quebradas migraram para os apartamentos, eles foram reciclados e ordeiros para as pousadas e hotéis. “Quem não dormiu no sleepping bag nem sequer sonhou.”

 

Julho 2014

Publicado no livro "Memórias e Patrimônio, crônicas e outros escritos", Verbena Editora.