Governo sofre perdas no arquivamento da denúncia

O governo Temer saiu pior do que entrou da votação da segunda denúncia contra o presidente e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral). A oposição não teve os improváveis 342 votos, o que leva a denúncia ao arquivamento, e os governistas tiveram mais votos do que os adversários, o que era bem previsível. O governo, porém, teve 12 votos a menos, na comparação com a votação da primeira denúncia, e não obteve a maioria absoluta da Casa (257 votos).
Votaram favoravelmente ao governo 251 parlamentares, um dado ruim, mesmo considerando as 25 ausências indiscriminadas e as duas abstenções. A oposição somou 233 votos, dois a mais em relação a agosto.
O dado mais delicado da votação foi o posicionamento do PSDB, que se apresentou dividido, novamente, tendo dado 23 votos pela continuidade da investigação e 20 contra o processo. Da bancada tucana de São Paulo, somente um deputado ficou com Temer.
Temer vai ter que partir para a recomposição da base de apoio, se quiser dar continuidade à agenda econômica, que pode ser tida como imprescindível. Esta passou a ser uma exigência daqueles que entraram de corpo e alma na defesa do presidente.

Façam suas apostas, podemos ajudá-los

Continua aberta a lances a bolsa de apostas sobre o que pode sair do Congresso depois da votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, desta vez acompanhado dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco. Tema obrigatório das avaliações com políticos, a bolsa de apostas mostra a Reforma da Previdência em baixa e as medidas de ajuste fiscal e reformas microeconômicas relativamente bem cotadas. Corre em paralelo uma visão “a la Centrão”, segundo a qual o governo não fará mais nada antes consultar o Congresso.
O pano de fundo desta situação são os inúmeros compromissos assumidos por Temer e seus principais assessores, não para chegar a uma vitória, mas para escapar da degola. Não que o governo estivesse na iminência de cair, mas porque seguiu as regras do jogo que ele mesmo abraçou e que utilizou com mais intensidade do que os presidentes anteriores.
O governo Temer está permitindo uma analogia com o consagrado Teorema Tostines. Transportado para o Planalto, em meio às denúncias de corrupção, o Teorema Tostines permite indagar: Temer cedeu aos aliados porque era fraco ou ficou fraco porque cedeu aos aliados?

CEO do governo

A visão “a la Centrão”, exposta pelo ziguezagueante deputado Rogério Rosso (PSD-DF) chega a atribuir ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o papel de CEO do governo, deixando para Temer os aspectos cerimonias. Aos interlocutores logo vem a imagem da Rainha da Inglaterra, dona de uma respeitável folha de serviços prestados ao Reino Unido.
Certamente essa ideia surgiu entre agentes de mercado frequentadores da ponte aérea São Paulo - Brasília. Seria bom que, ao contrário de Rosso, Rodrigo Maia não desse atenção para tal ideia, pelas consequências nefastas para harmonia entre poderes.
Quanto às consultas do Executivo ao Congresso, elas devem ser intensificadas e ampliadas. Isso poderia evitar portarias como a que reviu o conceito de trabalho escravo, suspensa liminarmente pela ministra Rosa Weber, do STF, ou o decreto que extinguiu a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na Amazônia, do qual o governo recuou depois de tentativas frustradas de esclarecimento sobre a medida

Perspectivas para o pós-denúncia

A segunda denúncia contra Temer paralisou os ajustes que o governo precisa fazer no Orçamento, depois da elevação do déficit fiscal de 2018, de R$ 129 bilhões para R$ 159 bilhões. Para atingir a nova meta, foi anunciado, ainda em agosto, um pacote de medidas de aumento de receita e de corte de gastos, cujo envio ao Congresso foi contido para não se misturar com a tramitação da denúncia.
O líder do DEM na Câmara, deputado Efraim Filho (DEM-PB), defende que a Casa se volte para temas de interesse direto sociedade, como uma pauta de medidas relacionadas à segurança pública. Ele acredita que o governo deve seguir a trilha das reformas microeconômicas, como a instituiu a Taxa de Longo Prazo, a Terceirização e a Reforma Trabalhista. E considera que o presidente erra quando coloca o foco na Reforma da Previdência.
A essa altura, é inconcebível o governo cobrar dos aliados a aprovação da idade mínima, depois de fazer incontáveis concessões aos partidos da sua base de sustentação. Temer deve pedir o apoio à reforma, mas ser convencido pelos aliados da inviabilidade política do projeto.

TEMER EXONERA MINISTROS-DEPUTADOS

A edição desta sexta-feira do “Diário Oficial” trouxe a exoneração de nove ministros de Estado, que estavam licenciados da Câmara dos Deputados e vão voltar ao exercício do mandato, para apresentar emendas ao projeto da lei orçamentária, cujo prazo está se encerrando nesta semana, e para votar a segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer, na próxima quarta-feira. Cumpridas as tarefas, eles retornam ao posto na Esplanada dos Ministérios.
Foram exonerados os ministros Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), Raul Jungmann (Defesa), Mendonça Filho (Educação), Bruno Araújo (Cidades), Leonardo Picciani (Esportes), Sarney Filho (Meio Ambiente), Ronaldo Nogueira (Trabalho), Marx Beltrão (Turismo) e Maurício Quintella (Transportes, Portos e Aviação Civil). O ministro Fernando Coelho Filho (Minas e Energia) já havia sido exonerado no início da semana.